Eu tenho uma coisa horrível a revelar: eu sou hipocondriaca.
Tomo remédio como se não houvesse amanhã. Deu dor de cabeça? Tomo dois de uma vez. Tô tossindo? Vou direto pro corticóide. Aliás, corticóide é um tudo na minha vida. Sou meu próprio médico, sem faculdade, sem CRM, sem nada. Praticamente parto do princípio que “filha de médico, mediquinha é”. E sei que só faço cagada comigo mesma, até porque eu vivo doente.
Mas ontem pensei que a coisa tá feia. Ferrou mesmo, sabe? A Duduca chegou “nimim” e perguntou: “mamãe, tem remedinho agora? Oba! Oba!”.
Então resolvi não dar mais mau exemplo e tô guardando a minha filial da droga-raia.
(e antes que alguém me denuncie pro conselho tutelar é bom eu ressalta que as meninas só tomam o que o pediatra receita. as vezes eu me seguro, mas só receitado por ele mesmo).
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Eu não sou do tipo de mulé-heroína. Não, não mesmo.
Não quero e nem faço questá de dar conta de casa, filhos, compras, trabalho e tudo. E por isso eu amo as minhas auxiliares de casa.
Então eu armei um esquema ótimo de empregada e babá de modo que eu nunca ficasse sem alguém em casa. Quer dizer, que eu não ficasse, no horário regulamentar, sem alguém em casa. (E é claro que nesse “alguém” o Rodrigo não está incluído).
E ai aconteceu: a empregada ficou doente. E eu fiquei com as filhas e marido em casa. Fiz tudo. T-u-d-o. Acho que pedi poucas coisas pro marido, a não ser “segura uma aqui”, “ajuda outra acolá”, mas fiz almoço, jantar, dei papinha, coloquei pra dormir, dei remédios, brinquei, fiz todas as milhares de inalações que o pediatra mandou fazer nas duas, dei banho, troquei fralda, dei suco, fiz papinha. Até bolo eu fiz! E no final do dia todos estavam vivos. Quer dizer, todos, menos o Rodrigo, que, lá pelas tantas me olhou e disse “Ana, obrigada. Nunca aguentaria essas coisas todas sem você”.
Essas coisas todas?? Quais??
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Bolinhas coloridas, ursinhos sonoros, mordedores de plástico, de silicone, mesinhas de atividade, panelas cantantes, ginásio de atividades, apitos, chocalhos. Tem tudo isso…mas a única coisa que realmente importa pra Fernanda é o controle remoto. E o prata. E a tecla “on” já era.
Acho que vou lá na Sta Ifigênia comprar outros pra ela.
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A Fernanda come até pedra. Basta colocar um salzinho, misturar com uma batata e ela come.
E eu estava louca pra descobrir algo que ela não gostasse. A minha curiosidade era tanta e demorou tanto tempo pra ser saciada, mas hoje ela detestou uma coisa: fígado…hahahaha
E agora, Dr. João….
Fígado nem em pesadelo…
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Por que eu me sinto velha quando passa Globo Reporter?
Será que existe alguém no mundo que asssiste aquele Zorra Total no sábado ou será que o Ibope engana a Globo há anos?
Por que eu não consigo fechar a boca?
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Eu tenho pensado em coisas legais pra fazer nas minhas horas de relaxamento que não envolvam comida e isso equivale a um grande vazio em minha mente.
Acho que vou entrar num curso de costura. Pilates certamente vou, porque descobri que essa de entrar numa ginástica com a grade horária aberta não dá pra mim. Sabe aquela máxima de que quando a gente pode fazer tudo acaba não fazendo nada? Então. Eu tenho vergonha de ir em academia, vergonha de subir nas máquinas e não saber mexer nela e vergolha de cair no chão.
Mas no pilates sou só eu, a moça e algumas poucas pessoas. Semana que vem vou lá fazer uma aula experimental. Tomará que dê certo!!
E na volta vou ver um corte de costura. Preferencialmente na hora do almoço, uma vez por semana…Nada muito profundo, nada muito complexo. Só um corte e costura. Talvez fazer roupas pras bonecas das meninas? Talvez fazer um tricô básico??
E coloquei foto da Fernanda e da Duduca.
Bom final de semana pra todos
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Enfim, a vida voltou ao normal.
A vida.
Não eu.
Aliás, acho que eu nunca vou voltar ao normal até porque não sou normal e nem sei ser normal. Aliás, quem é normal?
Eu voltei ao trabalho, à minha não-rotina, com a única diferença que agora eu tenho um compromisso inadiável: terapia…praticamente na veia. Assim, na modalidade inadiável, pra ontem, sem perdão e sem pena.
Fernanda está ótima e daqui a dois dias faz seis meses. Aquela fase punk passou e agora ela é a garota sorriso, uma docinha.
Duduca está maravilhosa, um doce, uma querida, como sempre.
Agora vou entrar no pilates e sair da gula…gula…gula…sempre esse papo de gula.
E engraçado porque agora, com duas filhas, vida mais corrida e tudo, eu tenho arrumado mais tempo pra mim e tenho me cuidado mais.
Tô fazendo as unhas todas as semanas, me depilando, fui na dermatologista tirar as manchas de bigode da gravidez e resolver aquela unha do dedo mindinho do pé que ficou toda estragada por conta de um sapato apertado. Além disso eu cuidei das estrias que apareceram nas minhas pernas.
E assim a vida vai. Descobri agora a vida no mode “como se não houvesse amanhã”. E vamos vivendo. Uns dias melhores, outros melhores ainda, e alguns dias ruins. E fazendo de um tudo pra que os dias ruins sejam cada dia menos e menos ruins.
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Sábado Duduca teve febre alta. Taca remédio, banho, cama dos pais, xixi na cama dos pais, e termômetro pra acompanhar a febre madrugada adentro.
Dia seguinte Duduca acorda e vai assistir televisão. Resolve, então, brincar com o termômetro. O pai, bravo ainda, diz pra ela:
- Duduca, assim não dá. Ou você assiste televisão ou brinca com o termômetro. Fazer duas coisas ao mesmo tempo não dá.
E ela responde de bate e pronto:
- Papai, mulher consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo, né? Eu sou mulher, papai. Eu consigo. Você que não consegue. Você é homem.
O silêncio se fez. Ele só teve uma reação: devolver o termômetro a ela.
(e eu saí da sala para rir)
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